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Minhas Praias

 

Rodolfo Konder

 

As praias estiveram comigo em todas as fases da minha vida, acentuando a alegria ou aprofundando a tristeza, presentes de dia ou de noite, na vigília ou no sono. Elas tanto inspiraram sonhos românticos como pesadelos recorrentes. Nas madrugadas geladas de Nuns’ Island, por exemplo, um pesadelo me perseguiu durante meses. Eu caminhava assustado por uma interminável praia deserta. A areia cedia sob meus pés, pegajosa e fria. O mar ficava subitamente encapelado, as ondas cresciam e batiam nas minhas pernas. Tentava me afastar, não conseguia. Pedia socorro, ninguém me ouvia. Já não podia permanecer de pé, por isso engatinhava e afundava na areia.

Na praia do sonho estavam certamente as lembranças fragmentadas das muitas outras praias que percorri, até chegar à solidão nevada de Montreal. Havia ali, por exemplo, a memória da imensa praia varrida pelo vento, por onde caminhei, desolado, em Punta Del Este. Era uma praia povoada de escombros misteriosos, restos de barcos naufragados pequenos caranguejos, conchas coloridas e gaivotas que pairavam imóveis no ar, sobre peixes e marolas. Era também uma praia povoada de desencontros e desilusões.

Talvez a praia do pesadelo contivesse referências a Punta Negra, nos confins de Lima, com despenhadeiros escuros, pedras e moluscos. Agredida pela águas raivosas do Pacífico, a vida ali se escondia, amedrontada. As pessoas se retraíam – não se expunham, com incontida sensualidade, como na Praia do Forte, em Salvador, ou na Praia Brava, em Florianópolis.

No sonho, havia seguramente a lembrança de uma pequena praia coberta de seixos – “pebbles” em inglês – que visitei na Nova Escócia, batida por ondas descomunais e pelo implacável vento do outono canadense. Havia ainda a memória daquela praia ensolarada, perto de Barcelona, acariciada pelas águas azuis do Mediterrâneo, na véspera de uma viagem de trem para Toulouse, através dos Pirineus.

Em Acapulco, nas noite iluminadas de um tempo de “mariachis” e rumbeiras, andei descalço pelas areias macias de Caleta e Caletilla, antes de me aventurar num passeio de barco pelo mar aberto, até a Baía de Puerto Marques, onde me deitei em redes pouco confortáveis e comi peixe grelhado. O turismo de praia concentrava-se então, no México, em Acapulco, porque ainda não tinham inventado Cancún. Muitos anos depois, eu visitaria aquelas praias maravilhosas, na Península de Yucatán – bem melhores do que as da Costa do Pacífico.

Conheci as praias de Valparaíso e Viña Del Mar, até onde desci, procedente de Santiago. Fiz “jogging” na Praia do Francês, em Maceió. Visitei praias em Fortaleza e Montevidéu, Miami e Nova Jersey, Parati e Angra dos Reias. Na Amazônia e na Patagônia.

As praias da minha infância incluem Pizarras, Camboriú e Itajaí, de onde veio a minha família paterna. (Meu avô, Marcos Konder, foi prefeito de Itajaí durante 16 anos). Nadei nas águas de Búzios – Ferradura, Ferradurinha – quando me hospedava na casa dos amigos Paula e Heitor Simões de Oliveira. Nadei também na Praia do Pepino e na Barra da Tijuca. Mas cresci em Ipanema, onde morei durante 30 anos. Ali descobri os tatuís, que comia com arroz; as arraias, lentas e imponentes; os golfinhos; as águas-vivas; os tubarões. Ipanema me deu as primeiras mulheres, os corpos molhados e as peles bronzeadas. Ipanema me deu o amor.

Rodolfo Konder é jornalista, escritor e conselheiro da União Brasileira de Escritores.