Eça de Queiroz


Minhas Praias


Editorial


Sinfonia e Ciranda


Prêmio Mulheres no Mercado


A Magia de um Contador de Histórias


Lavradio


17° Encontro de Haicai


                Notícias


Edições


Página Inicial

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Martha Medeiros

 

O DIVà  DE MARTHA MEDEIROS

Ely Vieitez Lisboa

Conheço a cronista Martha Medeiros, do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e já admirava seus enfoques, com boutades notáveis e o estilo personalíssimo. Quando soube do seu romance, em um dos grandes jornais de São Paulo, noticiava-se que os leitores questionavam se a autora era psicóloga. Em plena Era da Semiótica, procura-se ainda saber como é a autora, para conhecer-lhe melhor a obra. O caminho deve ser o inverso.

Usando o procedimento literário de narrar sessões de terapia, uma conversa com seu psiquiatra, a autora passa a impressão de que o livro poderia ser literatura testemunhal. Os incautos que se acautelem; os limites entre a ficção e realidade são muito tênues e jamais se poderá delineá-los com precisão. E nem há necessidade disso, visto que o autor não é sua obra, todavia ela é a sua cosmovisão. De certa maneira, ele sempre se reescreve, a ele e sua visão de mundo.

É interessante notar, ainda, na estrutura do romance “Divã”, que os capítulos, curtos e condensados, são sessões de terapia, à busca do conhecimento de Mercedes e seu eu profundo. Cada capítulo tem uma temática diferente, alicerçada na mundividência da personagem central. Assim, os capítulos podem ser lidos estanques e/ou seqüentemente, sem perda de interesse ou profundidade. A estrutura lembra o “romance rosácea”, como já foi chamado pela crítica especializada, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos: os capítulos são verdadeiros contos.

Há hoje, mais do que nunca, por razões várias, uma problemática intrínseca à literatura. O leitor moderno, assediado pelas mais diversas propostas, apelos vários, perdeu a paciência para ler obras literárias complexas. São tempos do fast-food: os livros devem ser leves, agradáveis, superficiais, atraentes, de linguagem fácil. Esta é a receita do best-seller. O grande impasse é escrever um romance profundo, sério, fascinante. A linguagem, tão fácil, que qualquer leitor a entenda e tão pertinente, que traga mensagens, revelações sábias. Martha Medeiros consegue o inusitado, em “O Divã”, Editora Objetiva Ltda, Rio de Janeiro, 2002.

A coragem de desnudar-se diante do público, as confissões ousadas (adequadas, visto que “são” um monólogo com o terapeuta Lopes,_ mero contraponto), metáforas notáveis, que concretizam o abstrato: o consultório é a “alfândega que vai me dar o visto para passar para o lado mais oculto de mim.   Não sei explicar direito. Acho que a terapia vai servir para tirar a clandestinidade da coisa, preciso de um aval para fazer esta alteração de rota” (pg.13). O foco narrativo na primeira pessoa, o tom pretensamente confessional, a opção por mostrar seu lado incomum, crespo, o que, em geral, se esconde, tudo reforça uma intimidade sem jamais resvalar para o vulgar. Como diz a epígrafe da capa: “São muitas mulheres numa só, e alguns homens também. Prepare-se para uma terapia de grupo”. Toda a narrativa de M.M. traz a transparência de uma verdade confessional: ficção da melhor qualidade. Mercedes é e não é Martha, o tempo todo. Impossível separá-las, saber qual é qual, quem é a máscara de quem. Todas as personagens secundárias são importantes para se conhecer Mercedes, que se atira à procura do auto-conhecimento abissal, sem volta, “sempre asfaltando uma nova estrada para mim, totalmente desfalcada de sinalização. Lopes, não encontro mais placa de PARE nos cruzamentos”.

Os mergulhos profundos nas questões metafísicas mais complexas, a procura do eu essencial, de respostas que não existem (“Agora entendo que nunca estarei pronta”, pg.154), a coragem de se olhar sem máscaras, o desprezo pelas convenções sociais, essa é a rota de Mercedes/Marta. Como em literatura nada é fortuito, mas deliberado, uma observação sobre a onomástica: M(ercedes), personagem, e M(artha), autora, têm as mesmas iniciais do nome e sobrenome da autora do romance. Outros procedimentos literários que fazem do romance “Divã” uma obra notável: ficção de alta qualidade, linguagem solta, às vezes coloquial, uma narrativa sedutora, com enfoques pessoais, originais, os capítulos curtos, a variedade de abordagens estilo vivaz, ligeiro, rápido, envolvente.

Martha Medeiros, no romance “Divã”, é um Midas literário. Transformou seu romance em ouro puro, do mais alto quilate.

Ely Vieitez Lisboa pertence à Academia Ribeirãopretana de Letras e à União Brasileira de Escritores.