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Diz
o sexto livro da Eneida que os sonhos nos chegam através de duas portas.
Pela porta de marfim vêm os sonhos falsos, enganosos. Pela porta de chifre, os
sonhos proféticos. O problema é que nem sempre distinguimos uns dos outros. Nem
nós, nem os oráculos.
Huayna Capac sonhou
que três anões vinham buscá-lo. Doente e assustado, pediu a um oráculo que
interpretasse o sonho e lhe indicasse a melhor maneira de recuperar a saúde. O
oráculo mandou que o inca saísse ao sol para ficar bom. Huayna Capac se pôs ao
sol- e morreu.
O ditador iraqueano
Sadam Hussein também foi acossado por um sonho perturbador. Sonhou que era a reencarnação de
Nabucodonosor- e decidiu reerguer o antigo império da Babilônia. Não saiu o
sol, mas foi à guerra. Provocou a Guerra do Golfo, com a empáfia de um
imperador indestrutível- e acabou duramente batido pela moderníssima máquina
militar dos Estados Unidos. Tempos depois, foi deposto pelas tropas
norte-americanos e acabou na prisão. Nabucodonosor está preso.
Os sonhos de Slobodan Milosevic, déspota
sérvio, esbarraram igualmente na implacável máquina norte-americana, dotada de
precisão milimétrica pela mais avançada tecnologia militar já utilizada por
seres humanos. Milosevic sonhou com a purificação étnica da região de Kosovo.
No coração da mesma Europa assombrada, aturdida e desfigurada, mais de meio
século atrás, pelos sonhos de dominação racial de um cabo austríaco, pintor sem
talento e profeta do holocausto, as tropas sérvias foram desta vez o
instrumento dos massacres preconizados pelos projetos nazistas. No seu sonho,
Milosevic vestia uma farda da SS. Ao concordar, estava nu.
Durante muitos anos, o general Augusto Pinochet
sonhou que era dono do Chile. O país era a sua “hacienda”, que ele administrava
com mão de ferro. Mandava prender jornalistas, sindicalistas, intelectuais e
dirigentes políticos. Em maio de 1985, em seguida a manifestações públicas
contra o seu governo, o general mandou para a prisão 15 mil pessoas das zonas
mais pobres de Santiago. Os agentes de Pinochet baniram, seqüestraram,
torturaram, surraram e detiveram milhares de chilenos. Alguns foram queimados vivos, como Rojas de
Negri de 19 anos. Outros – como Santiago Nattino, José Manoel Parada, Manuel
Guerreiro e Juan Ballesteros- foram torturados, mutilados e mortos. Hoje, o
sonho de Pinochet se tornou um pesadelo, diante de um novo mundo, onde os
ditadores são simplesmente ditadores- e, sempre que possível, réus.
Na Venezuela, o militar golpista Hugo Chávez
sonhou que era Simon Bolívar. Tentou ganhar o poder pelas armas. Não conseguiu.
Buscou os caminhos do populismo e da demagogia- e chegou à Presidência da
República. Impôs ao Congresso uma Constituição em que direitos e objetivos se
misturam, sem esclarecer como a conta será paga. Os venezuelanos terão “direito
ao trabalho e à educação, a moradia decorosa, ao salário digno, à saúde física
e mental”. Aqui, o jornalista cubano Carlos Alberto Montaner pergunta: e os
neuróticos? São eles que violam a Constituição, por serem doentes, ou é a
sociedade que viola os seus direitos, ao propiciar ou permitir sua doença?
Logo, a população da Venezuela vai concluir que o sonho de Chávez chegou até
ele pela porta de marfim, para se transformar depois num pesadelo nacional.
No enigmático mundo dos sonhos, não encontramos
apenas profecias e equívocos. Há ali linhas que se cruzam, além dos limites do
espaço e do tempo, compondo e recompondo desenhos e mistérios.
O imperador mongol Kubla Khan sonhou
detalhadamente com um palácio. Ao acordar, guardava sua planta na memória e
mandou que o construíssem, no século 13. No século 18, o poeta inglês Samuel
Coleridge sonhou com um poema de 300 versos sobre o palácio de Khan, mas,
depois de receber uma visita inesperada, só conseguiu registrar parte do poema.
Quando Coleridge sonhou, já não existia o palácio- nascido também de um sonho,
cinco séculos antes, do outro lado do mundo, numa simetria absurda e
sobrenatural.
Rodolfo Konder
é conselheiro da União Brasileira de Escritores.