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Os Caminhos da Ficção Curta

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À Sombra do Catulo

Outro Sol: muitos sóis

Do Poder da Palavra: Ensaio se Literatura e Psicanálise

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Sonhos e simetrias

 

 

Rodolfo Konder

 

 

Diz o sexto livro da Eneida que os sonhos nos chegam através de duas portas. Pela porta de marfim vêm os sonhos falsos, enganosos. Pela porta de chifre, os sonhos proféticos. O problema é que nem sempre distinguimos uns dos outros. Nem nós, nem os oráculos.

Huayna Capac sonhou que três anões vinham buscá-lo. Doente e assustado, pediu a um oráculo que interpretasse o sonho e lhe indicasse a melhor maneira de recuperar a saúde. O oráculo mandou que o inca saísse ao sol para ficar bom. Huayna Capac se pôs ao sol- e morreu.

O ditador iraqueano Sadam Hussein também foi acossado por um sonho perturbador.  Sonhou que era a reencarnação de Nabucodonosor- e decidiu reerguer o antigo império da Babilônia. Não saiu o sol, mas foi à guerra. Provocou a Guerra do Golfo, com a empáfia de um imperador indestrutível- e acabou duramente batido pela moderníssima máquina militar dos Estados Unidos. Tempos depois, foi deposto pelas tropas norte-americanos e acabou na prisão. Nabucodonosor está preso.

Os sonhos de Slobodan Milosevic, déspota sérvio, esbarraram igualmente na implacável máquina norte-americana, dotada de precisão milimétrica pela mais avançada tecnologia militar já utilizada por seres humanos. Milosevic sonhou com a purificação étnica da região de Kosovo. No coração da mesma Europa assombrada, aturdida e desfigurada, mais de meio século atrás, pelos sonhos de dominação racial de um cabo austríaco, pintor sem talento e profeta do holocausto, as tropas sérvias foram desta vez o instrumento dos massacres preconizados pelos projetos nazistas. No seu sonho, Milosevic vestia uma farda da SS. Ao concordar, estava nu.

Durante muitos anos, o general Augusto Pinochet sonhou que era dono do Chile. O país era a sua “hacienda”, que ele administrava com mão de ferro. Mandava prender jornalistas, sindicalistas, intelectuais e dirigentes políticos. Em maio de 1985, em seguida a manifestações públicas contra o seu governo, o general mandou para a prisão 15 mil pessoas das zonas mais pobres de Santiago. Os agentes de Pinochet baniram, seqüestraram, torturaram, surraram e detiveram milhares de chilenos.  Alguns foram queimados vivos, como Rojas de Negri de 19 anos. Outros – como Santiago Nattino, José Manoel Parada, Manuel Guerreiro e Juan Ballesteros- foram torturados, mutilados e mortos. Hoje, o sonho de Pinochet se tornou um pesadelo, diante de um novo mundo, onde os ditadores são simplesmente ditadores- e, sempre que possível, réus.

Na Venezuela, o militar golpista Hugo Chávez sonhou que era Simon Bolívar. Tentou ganhar o poder pelas armas. Não conseguiu. Buscou os caminhos do populismo e da demagogia- e chegou à Presidência da República. Impôs ao Congresso uma Constituição em que direitos e objetivos se misturam, sem esclarecer como a conta será paga. Os venezuelanos terão “direito ao trabalho e à educação, a moradia decorosa, ao salário digno, à saúde física e mental”. Aqui, o jornalista cubano Carlos Alberto Montaner pergunta: e os neuróticos? São eles que violam a Constituição, por serem doentes, ou é a sociedade que viola os seus direitos, ao propiciar ou permitir sua doença? Logo, a população da Venezuela vai concluir que o sonho de Chávez chegou até ele pela porta de marfim, para se transformar depois num pesadelo nacional.

No enigmático mundo dos sonhos, não encontramos apenas profecias e equívocos. Há ali linhas que se cruzam, além dos limites do espaço e do tempo, compondo e recompondo desenhos e mistérios.

O imperador mongol Kubla Khan sonhou detalhadamente com um palácio. Ao acordar, guardava sua planta na memória e mandou que o construíssem, no século 13. No século 18, o poeta inglês Samuel Coleridge sonhou com um poema de 300 versos sobre o palácio de Khan, mas, depois de receber uma visita inesperada, só conseguiu registrar parte do poema. Quando Coleridge sonhou, já não existia o palácio- nascido também de um sonho, cinco séculos antes, do outro lado do mundo, numa simetria absurda e sobrenatural.  

Rodolfo Konder é conselheiro da União Brasileira de Escritores.