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Euclides e Rosa, os sertões de cada um

 

Nildo Carlos Oliveira

 

Em meio à leitura compassada e atenta, conferindo as passagens para aferir a correção comparativa dos traços paralelos, mas convergentes, que acabam unindo os dois escritores no tempo e no espaço, a indagação se impõe: Por que livro de tal importância para o conhecimento desses dois marcos da literatura brasileira, não é difundido e adotado como elemento exemplar para compreendê-los e assimilá-los? Claro que sobre ambos há ampla bibliografia, mas suas obras são fonte de água corrente, portanto de energia renovável, e cada geração que os estude, fatalmente encontrará ali ângulos novos a serem explorados.  E, cada vez, como se fosse a primeira vez.          

Refiro-me ao livro Euclides da Cunha e Guimarães Rosa/ Através dos sertões, no qual o autor, Paulo Dantas, penetra na obra e na alma desses escritores, que colocaram para a História e para as estórias, a tragédia social, política e humana do sertanejo em seu ambiente – Canudos, que não se rendeu, e os campos-gerais - “onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho da autoridade”.

Editado pela Massao Ohno em 1996, com epígrafe de Ronald de Carvalho (“Nasceu, assim, uma literatura de dois planos, animada pelo imperativo dos paralelos e dos meridianos”), o livro passou esse período todo, quase dez anos, no estaleiro, ou seja, sem divulgação e sem distribuição, circulando apenas nos estreitos limites da amizade e da intimidade. Com isso, perdem os leitores e perdem gerações sucessivas, sobretudo estudantes e pesquisadores, que poderiam ter nessa obra uma opção bibliográfica a mais – e a melhor opção - para ampliar o conhecimento sobre os dois escritores a partir de um trabalho elaborado com a alma e a linguagem de um autor que identificou em Euclides, e em Guimarães Rosa, o principal motivo do viver e do fazer literários.

Não é outro o pensamento do mestre Antônio Cândido que assim se manifesta sobre Paulo Dantas, em carta a Marcelo de Almeida Toledo, publicada na abertura do livro: “Paulo Dantas tem a capacidade rara de sentir a fundo a realidade do mundo sertanejo, mas transformando-o em linguagem literária, isto é, tirando-o do simples registro.” E mais adiante: “... essa linguagem é pessoal, mas aderente ao ritmo profundo das linguagens que suscitaram o mundo de Euclides e o mundo de Rosa, ficando mais perto desta que aquela, como ele próprio sugere.” E ainda: “Penso que nosso Paulo ‘criou’ um modo especial de ver duas grandes obras, uma à luz da outra, e desse modo fez mais do que os críticos costumam fazer: iluminou-as de dentro, assumindo um ritmo expositivo que ajuda a perceber as transfigurações”. 

O crítico sintetizou o que Paulo explorou nas duas vidas, nas duas obras, mostrando que o escritor de palavras selecionadas a dedo, no dicionário da engenharia, geologia, filosofia e da arte militar da época, nascido em Cantagalo no Estado do Rio em janeiro de 1866, teria um encontro marcado no tempo com o outro escritor  – Ave, Palavra - nascido em Cordisburgo e que trilhou as terras altas, “demais do Urucúia”, mundo do compadre meu Quelemém, Diadorim,  Riobaldo, Joca Ramiro, Zé Bebelo e tantos outras celebridades.

Então vêm os confrontos e os contrastes: em um, a absorção dos sertões filtrada nos garranchos das letrinhas apressadas, que seguem as sinuosidades das travessias e das lutas nas caatingas; no outro, o diplomata com assento no Itamaraty e na civilização de Copacabana e de outras regiões, compondo as estórias dos campos gerais utilizando lápis de ponta afiada. Apesar dessa distância, e por mercê do tempo e das identidades, eles se estendem as mãos na transfiguração em que apresentam dois brasis, amplos complementares.

E são feitas, então, as comparações resultantes de leitura meticulosa: Rosa faz ficção; Euclides, a denúncia; Rosa jagunceia; Euclides, negaceia; Euclides não teve como criar um tipo a exemplo de Manuelzão, porque o olho abarcava, sobretudo, o coletivo; Rosa esculpiu figuras em cavalgada; Euclides se estriba, freia os ímpetos; Rosa é comoção; Euclides descreve a tragédia expondo-a como libelo; Rosa proseia e faz poesia; Euclides era engenheiro, acostumado a talhar pontes e estradas; Rosa era médico e saía a clinicar nas matas de Minas; Euclides entrava pelas caatingas e pelas florestas, sem comendas na algibeira; Rosa administrava a glória literária nas cidades do mundo; Euclides assume o sertão trágico; Rosa, o sertão deslumbrado; o sertão, em Euclides, é um continente; em Rosa, o homem. Enquanto, em Euclides, os sertões gritam, e os homens não se rendem jamais, em Rosa, os sertões uivam e amam. 

Nesse trabalho, que segundo o autor, não se destina a fazer literatura comparada, mas “uma pesquisa de emoções achadas”, o encontro entre os dois escritores emociona, porque em ambos há a pluralidade do Brasil e de suas “mil e tantas misérias”. E, nessas duas vozes, o leitor colhe a riqueza do conhecimento obtido diretamente na fonte, por um autor que saiu com a sua caderneta de campo a fim de fazer o reconhecimento da História e das estórias que o marcaram. Corroborando uma frase do espanhol Enrique Vila-Matas, podemos dizer que Paulo Dantas  emerge do que escreve como uma serpente surge de sua pele, ou seja, renovado.

Contudo, é necessário retomar o fio da meada inicial: Por que tal livro não é difundido e distribuído? Simples: porque este é o mal dos que são editados e não conseguem chegar às livrarias. Um mal que oblitera oportunidades. Quando não há circulação e divulgação, obras dessa natureza encalham e a cultura recebe um duro golpe literalmente na cabeça. Os grandes, que detém o poder do marketing e da vida, sorriem.