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Em meio à leitura compassada
e atenta, conferindo as passagens para aferir a correção comparativa dos traços
paralelos, mas convergentes, que acabam unindo os dois escritores no tempo e no
espaço, a indagação se impõe: Por que livro de tal importância para o
conhecimento desses dois marcos da literatura brasileira, não é difundido e
adotado como elemento exemplar para compreendê-los e assimilá-los? Claro que
sobre ambos há ampla bibliografia, mas suas obras são fonte de água corrente,
portanto de energia renovável, e cada geração que os estude, fatalmente
encontrará ali ângulos novos a serem explorados. E, cada vez, como se fosse a primeira vez.
Refiro-me ao livro Euclides
da Cunha e Guimarães Rosa/ Através dos sertões, no qual o autor, Paulo
Dantas, penetra na obra e na alma desses escritores, que colocaram para a
História e para as estórias, a tragédia social, política e humana do sertanejo
em seu ambiente – Canudos, que não se rendeu, e os campos-gerais - “onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho da autoridade”.
Editado pela Massao Ohno em 1996, com epígrafe
de Ronald de Carvalho (“Nasceu, assim, uma literatura de dois planos,
animada pelo imperativo dos paralelos e dos meridianos”), o livro passou
esse período todo, quase dez anos, no estaleiro, ou seja, sem divulgação e sem
distribuição, circulando apenas nos estreitos limites da amizade e da
intimidade. Com isso, perdem os leitores e perdem gerações sucessivas,
sobretudo estudantes e pesquisadores, que poderiam ter nessa obra uma opção
bibliográfica a mais – e a melhor opção - para ampliar o conhecimento sobre os
dois escritores a partir de um trabalho elaborado com a alma e a linguagem de
um autor que identificou em Euclides, e em Guimarães Rosa, o principal motivo
do viver e do fazer literários.
Não é outro o
pensamento do mestre Antônio Cândido que assim se manifesta sobre Paulo Dantas,
em carta a Marcelo de Almeida Toledo, publicada na abertura do livro: “Paulo
Dantas tem a capacidade rara de sentir a fundo a realidade do mundo sertanejo,
mas transformando-o em linguagem literária, isto é, tirando-o do simples
registro.” E mais adiante: “... essa linguagem é pessoal, mas aderente ao ritmo
profundo das linguagens que suscitaram o mundo de Euclides e o mundo de Rosa,
ficando mais perto desta que aquela, como ele próprio sugere.” E ainda: “Penso
que nosso Paulo ‘criou’ um modo especial de ver duas grandes obras, uma à luz
da outra, e desse modo fez mais do que os críticos costumam fazer: iluminou-as
de dentro, assumindo um ritmo expositivo que ajuda a perceber as
transfigurações”.
O crítico sintetizou o
que Paulo explorou nas duas vidas, nas duas obras, mostrando que o escritor de
palavras selecionadas a dedo, no dicionário da engenharia, geologia, filosofia
e da arte militar da época, nascido em Cantagalo no Estado do Rio em janeiro de
1866, teria um encontro marcado no tempo com o outro escritor – Ave, Palavra - nascido em
Cordisburgo e que trilhou as terras altas, “demais do Urucúia”, mundo do compadre meu Quelemém,
Diadorim, Riobaldo,
Joca Ramiro, Zé Bebelo e
tantos outras celebridades.
Então vêm os
confrontos e os contrastes: em um, a absorção dos sertões filtrada nos
garranchos das letrinhas apressadas, que seguem as sinuosidades das travessias
e das lutas nas caatingas; no outro, o diplomata com assento no Itamaraty e na
civilização de Copacabana e de outras regiões, compondo as estórias dos campos
gerais utilizando lápis de ponta afiada. Apesar dessa distância, e por mercê do
tempo e das identidades, eles se estendem as mãos na
transfiguração em que apresentam dois brasis, amplos complementares.
E são feitas, então,
as comparações resultantes de leitura meticulosa: Rosa faz ficção; Euclides, a
denúncia; Rosa jagunceia; Euclides, negaceia;
Euclides não teve como criar um tipo a exemplo de Manuelzão, porque o olho
abarcava, sobretudo, o coletivo; Rosa esculpiu figuras em cavalgada; Euclides
se estriba, freia os ímpetos; Rosa é comoção; Euclides descreve a tragédia
expondo-a como libelo; Rosa proseia e faz poesia; Euclides era engenheiro,
acostumado a talhar pontes e estradas; Rosa era médico e saía a clinicar nas
matas de Minas; Euclides entrava pelas caatingas e pelas florestas, sem
comendas na algibeira; Rosa administrava a glória literária nas cidades do
mundo; Euclides assume o sertão trágico; Rosa, o sertão deslumbrado; o sertão,
em Euclides, é um continente; em Rosa, o homem. Enquanto, em Euclides, os
sertões gritam, e os homens não se rendem jamais, em Rosa, os sertões uivam e
amam.
Nesse trabalho, que
segundo o autor, não se destina a fazer literatura comparada, mas “uma pesquisa
de emoções achadas”, o encontro entre os dois escritores emociona, porque em
ambos há a pluralidade do Brasil e de suas “mil e tantas misérias”. E, nessas
duas vozes, o leitor colhe a riqueza do conhecimento obtido diretamente na
fonte, por um autor que saiu com a sua caderneta de campo a fim de fazer o
reconhecimento da História e das estórias que o marcaram. Corroborando uma
frase do espanhol Enrique Vila-Matas,
podemos dizer que Paulo Dantas emerge do
que escreve como uma serpente surge de sua pele, ou seja, renovado.
Contudo, é necessário retomar o fio da meada inicial: Por que tal livro não é difundido e distribuído? Simples: porque este é o mal dos que são editados e não conseguem chegar às livrarias. Um mal que oblitera oportunidades. Quando não há circulação e divulgação, obras dessa natureza encalham e a cultura recebe um duro golpe literalmente na cabeça. Os grandes, que detém o poder do marketing e da vida, sorriem.