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O FENÔMENO HARRY POTTER E O NOSSO TEMPO EM MUTAÇÃO

 

Nelly Novaes Coelho

 

Partimos aqui dessa arguta afirmação de Saramago – Prêmio Nobel de Literatura, para refletirmos sobre o grande fenômeno editorial/cultural de nossos dias, que é a série best-seller, Harry Potter, criada por J. K. Rowling¹, escritora escocesa radicada na Inglaterra. Desde o primeiro volume, Harry Potter e a Pedra Filosofal, lançado na Inglaterra em1995 ( e imediatamente traduzido em 35 idiomas e distribuido em 200 países), até  o mais recente, chegado ao Brasil, A Ordem de Fénix (2003), é que o pequeno bruxo Harry e a Escola de Magia Hogwarts (com o maléfico Voldemort, o grande mago Dumbledore, elfos, duendes, dementadores, feitiçarias e o contínuo duelo entre as forças do Mal e as do Bem) vêm sendo o “objeto de desejo” de milhões de crianças, jovens e adultos em todo o mundo.

Sucesso inusitado que, evidentemente, vem suscitando uma avalanche de críticas, pró e contra esse “enfeitiçamento” dos leitores, causado por esses volumosos livros, com suas centenas de páginas cobertas de letras, frases longas, nomes difíceis  e... sem ilustrações. E isso, em plena Era da Imagem, da Internet, das siglas  como linguagem, e da velocidade cada vez maior da Informação: engrenagem tecnológica que, conseqüentemente, vem  provocando nas novas gerações uma  inegável aversão à leitura literária, que exige tempo vagaroso e  concentração interior. É o Tempo da Máquina superando o Tempo Humano, que atua no mundo atual.

Entretanto são esses, os leitores de Harry Potter. Qual o mistério desse sucesso? Evidentemente não há respostas definitivas, pois como diz o ditado: “Cada cabeça, uma sentença.” A nosso ver, podemos entendê-lo como resultante de duas esferas de experiências: uma visível (a mercadológica) e outra invisível  (a das idéias hoje em revolução). A primeira obedece à Lei do Mercado (aliás a única lei absoluta neste nosso mundo globalizado), a segunda obedece à Lei da Evolução da Consciência Humana (à qual a Autora  alude indiretamente quando, ao lançar o primeiro volume, anunciou  que a série teria 7 volumes) E como sabemos, desde os tempos primordiais, o número Sete é  visto como um número mágico:7 dias da semana, 7 planetas, 7 graus de perfeição humana, 7 ramos da árvore do conhecimento, etc. E toda a magia que alimenta os volumes já publicados nos leva  a crer que o universo de Harry Potter pretende mostrar os sete  estágios evolutivos da Consciência Humana (ou do Conhecimento)².

HARRY POTTER e o Mercado

Do ponto de vista do mercado, a série Harry Potter, -literatura  destinada as crianças e adolescentes- se tornou o primeiro produto  editorial infantil/juvenil a se igualar aos grandes best-sellers  “adultos”. Fenômeno resultante de uma gigantesca engrenagem editorial “globalizada”, movida a partir da Inglaterra e EUA, o sucesso da série tem início com a inteligente e complexa estratégia da  tradução: cada volume é traduzido, com antecedência, em dezenas de idiomas, para ser lançado, simultaneamente, em centenas de países, e em tiragens que chegam a milhões de exemplares.

Os lançamentos são sempre precedidos de um formidável marketing: notícias invadem as colunas literárias da imprensa; detalhes da vida  da autora são esmiuçados; criam-se expectativas quanto ao aparecimento  de cada novo título da série, devido ao segredo que é mantido sobre ele, até o momento do lançamento. Fotografam-se filas de crianças à espera da compra, criam-se concursos que envolvem o  livro, etc.³

Essa fabulosa engrenagem mercadológica culminou com a transformação dos livros em filmes, fato que, além de sua maior divulgação  entre os leitores, eleva o lucro dado por esse especialíssimo produto, a somas astronômicas de milhões de dólares. Em lojas e livrarias, são espalhados outdoors, cartazes coloridos, caldeirões de papelão, figuras de feiticeiras e suas vassouras,  magos, clones do jovem personagem, fantasias de magos, etc. Em  escolas ou oficinas literárias para a meninada, abrem-se discussões sobre semelhanças e diferenças entre o texto novelesco e  sua transformação nas imagens do filme. Enfim, a série Harry Potter transformou-se numa grande  fonte de diversão e de aprendizado.

HARRY POTTER e a Crítica

Claro está que, diante desse  fenômeno, as   opiniões da crítica se dividiram: há os que negam o valor literário à série, pelo simples fato de ela ter sido transformada em best-seller (porque,  na verdade, a maioria dos best-selleres é puro produto do marketing e dura apenas os “15 minutos de fama”). Outros, como o severo  crítico americano Haroldo Bloom, rejeitando a natureza e originalidade da linguagem criada pela Autora, considera a série como “infindável seqüência de clichês”, e acrescenta: “Não é Alice  no País dos Espelhos...É apenas ficção barata.” (apud H. P. e a Filosofia. P. 13)

Na mesma linha negativa, a romancista americana A. S. Byatt, em  artigo no New York Times (apud Caderno 2-OESP. 12.07.2003), faz  uma leitura através de uma ótica realista redutora e afirma: “O  mundo mágico de Rowling não tem espaço para o espiritual.” Mas,  como veremos adiante (e de acordo com inúmeros outros analistas) o “espiritual” é uma das chaves para entendermos a saga de Harry Potter.

Em seguida diz:

... (Harry Potter) é escrito para pessoas cujo imaginário está confinado aos desenhos animados da televisão e os exagerados (excitantes, mas não ameaçadores) mundos refletidos nas novelas, reality shows e fofocas  de celebridades. Seus valores e tudo neles são, como disse Gatsby (personagem de Scott Fitzgerald) de seu próprio  mundo, quando a luz de seus sonhos se apagou, “apenas pessoais”. Ninguém está tentando salvar ou destruir nada além de  Harry Potter, seus amigos e sua família.

A nosso ver, embora lendo através de uma perspectiva equivocada, a escritora americana toca em dois   pontos vitais da série Harry Potter: o claro contraste que sua trama estabelece entre o mundo real (alimentado de valores banalizados ou desagregadores, bem semelhantes ao mundo de Gatsby na América pós-guerra 1914) e o mundo em mutação ( o das idéias de um Novo Humanismo em formação). Esclarecendo melhor: a saga de Harry Potter visa, como público-alvo, os  jovens leitores, hoje “aprisionados” pelas exterioridades do mundo do espetáculo, da performance, do “vale tudo”, dos “reality shows”, etc.,  onde não há espaço para o ser interior, para a reflexão,  para o pensar...mundo virtual onde  tudo é mostrado como verdade, mas não passa de encenações  bem montadas (com a sedução e a beleza da Arte televisiva) pela poderosa indústria do entretenimento, que é uma das contradições inevitáveis do nosso tempo: por um lado, movimenta milhões –fomentando o Progresso do mundo globalizado e, por outro, propõe modelos ou ideais de vida, que levam os humanos à alienação ou ao fracasso, porque visam apenas a realização do ser exterior (o das aparências, o das “celebridades”, o da conquista fácil e efêmera).

A romancista americana se equivoca ao comparar Gatsby com Harry e interpretar como “apenas pessoais” –restritos a “Harry Potter, seus amigos e família”, os problemas, desafios, perigos e ambições que tecem a complexa trama da série. O egocêntrico Grande Gatsby da América dos anos 20 (a enlouquecida e brilhante “era do jazz”, pós-guerra 1914) foi o  porta-voz da “geração perdida”. O solidário “Harry Potter” (mesmo sem que ele o saiba) é o porta-voz do “novo homem” em gestação, neste limiar do século XXI.

 Outros críticos vêem na série Harry Potter uma trama feita  de clichês e de “gente conhecida”, habitantes dos contos de fada. Na verdade é desse húmus arcaico que a sua  matéria novelesca  se alimenta e os tais “clichês” são, na realidade, arquétipos,  modelos de pensamento e ação, preexistentes na alma humana e que Jung, ao descobrir e analisar, mostrou-os como componentes do que ele chamou de Inconsciente Coletivo, -estruturas psíquicas quase universais. Espécie de consciência coletiva, e que  se exprimem em uma linguagem simbólica de grande poder energético, que une o individual ao universal. São órfãos que sofrem humilhações no meio familiar (como a Gata Borralheira), personagens  de origem desconhecida, vítimas do Mal e que acabam se revelando  como de superior grandeza. Ou ainda, há o “clichê” da viagem no encalço de um ideal e durante a qual o herói é ameaçado por  vários perigos, mas é ajudado por mediadores mágicos. Enfim, a leitura do significado simbólico da aventuras/desventuras de Harry Potter pode descobri-las como uma verdadeira viagem iniciática.

Entre acertos e equívocos, a  popularidade da série começa a atrair também a atenção de estudiosos do meio acadêmico. Uma  das primeiras grandes reuniões universitárias, dedicadas à sua análise, realizou-se em Orlando, na Flórida: o “Simpósio Harry Potter – Nimbus 2003”, no qual se sucederam debates acerca de questões de  justiça, desenvolvimento moral, o papel da mulher, o heroísmo, etc. O Simpósio Nimbus-2004 aconteceu no Canadá e o Nimbus-2005 já está sendo planejado.

Vários livros de estudos foram publicados. Entre eles estão: Harry Potter – Les Raison d’un succès (Paris, PUF, 2001) da pesquisadora e professora de filosofia Isabelle Smadja; e Harry Potter e  a Filosofia (trad. bras. SP, Medras, 2004) dos professores de filosofia, D. Baggett e S. E. Klein, respectivamente do King’s College/Pensilvânia e da  Universidade do Arizona/USA. 

A Saga de Harry Potter

Justificamos a classificação da série Harry Potter como saga, na medida em que sua matéria novelesca narra a “aventura maravilhosa” de um herói fundador. Não de um mundo já acontecido, mas de um mundo que surgirá no futuro, criado pelo novo homem hoje em gestação e do qual Harry Potter seria uma alegoria. Entendemos ainda essa série novelesca como saga, devido ao seu aparente parentesco com as antigas lendas nórdicas ou baladas  anglo-saxônicas que, milênios antes de Cristo, eram cantadas pelos bardos, contando os feitos dos heróis fundadores de povos, e transformando-os em Mitos (cf. o anglo-saxão Beowulf, o sueco Heldenbuch e outros que se difundiram por todo o Ocidente, como as Aventuras  do Rei Arthur e seus Doze Cavaleiros em busca do Graal, o Cálice  que guardava o sangue de Cristo).

Nessa ordem de idéias, vemos a série novelesca de Harry Potter como um inteligente amálgama de heranças dos tempos primordiais  (mitos, arquétipos, processos de iniciação ao saber oculto, processos de magia, mistérios da alquimia, etc. que permanecem no Inconsciente  Coletivo), fundidas com dados reais do nosso mundo  atual (tecnológico, informático, cibernético, com suas “magias”  inventadas pela Ciência...). Fruto dessa fusão, a série Harry Potter se oferece como uma pequena obra prima de construção literária, pela arte da escrita de J. K. Rowling. Arte-fusão de uma ampla cultura histórico-mítico-literária (de que é tão rico o imaginário anglo-saxão), transfigurada pela imaginação incomum da Autora. Fusão que engendra uma original e complexa trama novelesca (que tem muito de intriga policial), através de um estilo narrativo sui-generis. Os acontecimentos banais ou fantásticos que se sucedem ininterruptamente (em cenas curtas, como as das histórias-em-quadrinhos), e expressos numa linguagem coloquial, lúdica, que cria imediata intimidade com o leitor e o arrasta atrás de si  num ritmo acelerado, que faz lembrar o tempo veloz dos video-games e dos multimeios de comunicação. Ritmo ao qual as crianças, os jovens e adultos de hoje já estão acostumados, pois é o ritmo dominante em nosso  mundo “globalizado”, em acelerada mutação de vivências e costumes.

Sem dúvida, esse estilo moto-contínuo é um dos “ganchos” que, de imediato, prende o leitor à leitura e o leva a seguir atento, divertido ou ansioso as mil e uma aventuras/desventuras vividas pelo  pequeno bruxo Harry e seus amigos ou inimigos, na Escola de Magia Hogwarts. Aventuras, cujo oculto elo de unidade é o confronto entre as forças do  Bem e as do Mal; da Luz e das Trevas; Razão e Fantasia, Aparência e Magia...Simultaneamente com o confronto entre o mundo dos “trouxas” (os não-bruxos ou os alienados deste nosso mundo real-caótico) e os “bruxos” (os conscientes dos poderes do Homem para reordenar o atual caos).

É ainda de se notar que, embora tais aventuras se desenrolem em  sucessivos volumes, a trama novelesca de cada um  é habilmente construída pela grande arte da Autora, no sentido de que  cada um deles possa ser lido e compreendido, independente da leitura dos  demais. Todas as informações indispensáveis para a compreensão da série, são dadas em meio aos acontecimentos de cada volume, de modo absolutamente natural...fazendo  parte da nova trama. Assim a leitura da série pode começar por qualquer dos volumes e o essencial será perfeitamente conhecido e compreendido.

As Tramas da saga Harry Potter

Até o momento (2005) foram publicados cinco volumes da série. Tentemos sintetizar a trama básica de cada uma:

1. Harry Potter e a Pedra Filosofal (1995)

“O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros nº4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado. Eram  as últimas pessoas no mundo de quem se esperaria que se metessem em alguma coisa estranha ou misteriosa, porque simplesmente não compactuavam com esse tipo de bobagem.”

Nesse parágrafo inicial já se coloca o problema central da problemática da trama: a partir dos Dursley, tios de Harry, que se orgulham de serem  pessoas “normais” e não “bruxos”, já se prenuncia o confronto que se dará entre a Razão humana comum, rotineira e a Imaginação criadora ou os Poderes paranormais em que vivemos (chamado, na série, de mundo dos “trouxas”, os não-magos) e a segunda, dominante em Hogwarts, o mundo dos  magos. Os Dursley tinham horror e medo de tudo que não fosse “normal”, porque tiveram uma “bruxa” na família: Lilian, a irmã da Sra.  Dursley e mãe de Harry, que quando ainda bebê foi deixado na porta  dos tios para que o criassem, pois seus pais haviam morrido. Temido e detestado pelos tios, o garoto é posto a morar sob o vão da escada e era continuamente destratado por todos da casa. Até que ao  completar 11 anos, sua vida muda completamente. Nesse dia, coisas  estranhas começam a acontecer: uma coruja aparece trazendo uma carta para o Sr. Dursley, informando que chegara o momento de Harry começar a freqüentar a Escola de Magia Hogwarts, para desenvolver seus poderes de mago. Os Dursley, amedrontados, ignoram a carta, mas em certo momento irrompe pela casa o gigante Hagrid, aterrorizando a todos e desvendando a verdade sobre o menino Harry: seus pais, Tiago e Lilian, grande mágicos, foram traídos por suposto amigo e  vencidos pelo Lorde das Trevas, Voldemort, que os mata, mas não consegue matar também o bebê Harry, deixando-lhe apenas uma cicatriz, na testa, em forma de raio. Desvenda-se, pois, o fato de que Harry, sem o saber, era um bruxo e tinha superpoderes que precisavam ser desenvolvidos.  Hagrid leva Harry para Hogwarts e a partir daí desaparecem as fronteiras entre o mundo da magia e o mundo da realidade. Em Hogwarts, Harry começa, entre medos e curiosidades, a viver uma nova vida com os professores e os amigos Rony e Hermione (filha de “trouxas”, mas  dotada de poderes de “bruxa”, a serem desenvolvidos).

(Harry começa a entrar no primeiro estágio da evolução da consciência: o do nascimento e posterior descoberta do  próprio eu. Fase primeira da interrogação básica: Quem sou eu?)

2. Harry Potter e a Câmara Secreta (1998)

Harry Potter já é considerado um mago com poderes especiais, e  continua seu aprendizado em Hogwarts, entre encontros e desencontros, amigos e inimigos, vai descobrindo os processos de domínio da realidade pela magia, enfrentando as armadilhas da vaidade e lutando contra os preconceitos sociais. O elemento provocador  da trama é mistério a ser desvendado: alguém ou algo está transformando em pedra aqueles que, em Hogwarts,  são descendentes de “trouxas” ou  não-magos. Harry precisa descobrir esse mistério, antes que sua  maior amiga, Hermione, seja a próxima vítima. E o consegue...

(Seria esse o segundo estágio na linha da evolução da consciência de Harry: O despertar do emocional, das emoções contraditórias que se misturam aos sentimentos (medo e coragem) e à imaginação (impulsos de solidariedade)

3. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

As fascinantes aventuras de aprendizado em Hogwarts continuam,  mas uma noticia vem desafiar Harry para um novo perigo: acabara de fugir da prisão de Azkaban, Sirius Black, tido como seguidor  de Voldemort e responsável pelo assassinato dos pais de Harry. Ele escapara da prisão, sem dúvida, para terminar o que se frustrara no passado: o assassinato de Harry. Entre mil e uma aventuras, perigos, equívocos e magias, Harry acaba por descobrir que Sirius Black era seu padrinho e que fora traído por um outro seguidor do Lorde das Trevas. Ele tenta proteger Harry e este o ajuda a fugir do Ministério da Magia, montado em um Hipogrifo.

(Neste volume, Harry estaria passando pelo 3º estágio de sua evolução interior: a do desenvolvimento do mental concreto: o das experiências de  desafios e ameaças que levam à aceleração do raciocínio e à descoberta da possível verdade oculta nos seres e coisas.)

4. Harry Potter e o Cálice de Fogo (2000)

Nesta nova aventura, Harry Potter é misteriosamente sorteado pelo Cálice de Fogo, para participar do Torneio de Quadribol que reunia magos e bruxos de outras escolas de bruxarias. Entre os perigos e  desafios a serem enfrentados, Harry tem de passar por um dragão, pegar seu amigo no fundo do lago e tocar num troféu num labirinto  enfeitiçado. No fim da competição um adversário morre, e Harry tem de enfrentar Voldemort o terrível bruxo que matara seus pais. Mas vence.

(Neste quarto volume, Harry entraria no estágio de desenvolvimento do mental abstrato, o desenvolvimento  do Pensamento Superior e aprofundamento na esfera do Inconsciente como orientação do agir.)

A Ordem de Fênix (2003)

Harry, já  adolescente, prossegue em Hogwarts com seu aprendizado de mago. A trama tem seu climax na luta mortal travada por Harry para impedir que o Prof. Quirrell (mago seguidor de Voldemort) se apossasse da Pedra alquímica, que não só podia transformar qualquer  metal em ouro, mas também produzir o Elixir da Vida que tornaria  imortal aquele que o bebesse. A luta entre Bem e Mal chega ao auge  com o confronto entre o Grande Mestre do Bem, Dumbledore, e o Lorde das Trevas. Vence-o, mas se recusa a matá-lo, porque “a Morte não é o pior castigo”. Harry se depara com a grande interrogação humana: O que é a Morte?

(Neste quinto volume, Harry entra na esfera das forças intuitivas que preparam caminho para a sondagem do Inconciente. Esfera, onde estariam as interrogações metafísicas cujas respostas o Mundo Pensante de hoje ainda não consegue dar. Interrogações que, por enquanto, só podem  ser respondidas pela Fé.)

Os futuros volumes

Os títulos e as novas aventuras dos próximos volumes ainda não  foram anunciados. São guardados em segredo, seguindo a estratégia  de marketing que vem sendo usada. Mas a julgar pela problemática  dominante nos anteriores, é de se esperar que as futuras aventuras e desafios a serem vividos por Harry e seus amigos revelem a continuidade do processo evolutivo da Consciência, pressentido nos anteriores. Nesse sentido, lembramos que o 6º estágio de evolução corresponde ao fortalecimento da Vontade (ou da Escolha) que, guiada  pela Sabedoria passa à Ação Solidária plena. O 7º estágio corresponderia ao alcance da Consciência Total: União dos contrários, Serenidade, Meditação e Contemplação suprema da Vida em seu Mistério.

Harry Potter chegará a esse estágio? É o que veremos nos futuros volumes...

O Fenômeno Harry Potter e o nosso tempo em mutação

Em 1970, o filósofo americano, Thomas Hanna, escrevia em seu  livro, Corpos em revolta:

“Atualmente, os corpos humanos estão em estado de rebelião cultural. Da complexidade crescente das sociedades tecnológicas emerge hoje em dia nova espécie de ser humano: o mutante, que aumentará pouco a pouco o seu domínio na sociedade e criará, ao mesmo tempo, uma nova cultura para ela.”

O extraordinário sucesso da Série Harry Potter (para além das mil e uma causas que o justificariam) estaria, a nosso ver, ligado substancialmente à nova corrente de pensamento, analisada por Thomas Hanna, -a da Cultura somática. A que descobre o ser humano como “soma”, fusão corpo/espírito, que em nossa época passa por novo estágio de evolução: os chamados mutantes. “Soma” é

 “...matéria em contínua pulsação, ação, fluência, síntese e relaxamento –alternando com o medo e a raiva, a fome e a sensualidade. /.../ O soma é tudo que você é, pulsando dentro  dessa membrana frágil que muda, cresce e morre, e que foi separada do cordão umbilical que unia você –até o momento da separação-  a milhões de anos de história genética e orgânica dentro do cosmos. /.../ Somas somos eu e você, nesse lugar onde estamos, seres cuja história evolutiva conduzia ao momento revolucionário da percepção de que o novo mundo a ser explorado pelo século XXI é o imenso labirinto do soma, da experiência  corporal e viva  dos indivíduos” em pleno processo de adaptação ao belo/horrível  cyberespace (mundo da tecnologia) em que nos cumpre viver.

Aliás, essa “cultura somática” identifica-se com várias outras correntes de pensamento, hoje atuantes e que surgem no século XX,  colocando o Ser no centro da “revolução” hoje em processo no mundo  globalizado. Correntes como a da Fenomenologia de Husserl, a do Existencialismo de Heidegger ou a do Pensamento Complexo de Edgar  Morin. Todas elas, de diferentes maneiras, convergindo para a  formação de um Novo Homem. Ou melhor, uma Nova Mente.

Dentro desse contexto, o universo novelesco criado na saga Harry Potter, -universo global formado pelo mundo dos trouxas e pelo mundo dos magos, pode ser lido como uma grande e fantástica alegoria do Mundo  Ocidental e sua organização sócio-político-econômica, hoje em pleno  processo de mutação, com sua Lógica, suas certezas absolutas, seus fundamentos cristãos-liberais, desafiados pelo Mistério de um mundo ao qual a Ciência roubou o seu centro sagrado (Deus), mas não conseguiu explicar o Mistério da Vida e do Homem .

Ao leitor jovem, ao qual essa série se destina, evidentemente, esse possível significado simbólico ou alegórico não tem  o menor interesse em ser conhecido. O prazer da leitura lhe basta, muito embora o esteja influenciando subliminarmente e passando-lhe a sua “mensagem”. Já com o leitor adulto será diferente. Fazendo a sua leitura através dessa ótica (ou através dessas novas correntes de pensamento) a fascinante/prazerosa Aventura do mago Harry Potter  revela sua essencial sintonia com este nosso tempo em mutação, e prefigura, alegoricamente, o “mutante”, a nova mente em acelerada e caótica formação, entre uma civilização em declínio (a cristã-liberal-burguesa) e uma nova cultura que vem emergindo do caos atual. Quais serão os fundamentos definitivos dessa Nova Cultura que, por  sua vez, engendrará a Nova Civilização que há de chegar um dia,  ninguém ainda o pode prever. O que parece inegável é que o seu  centro gerador é o Homem, o Ser Humano e a expansão de suas potencialidades latentes, ainda inexploradas.

Daí que a Magia, as metamorfoses, feitiçarias, visões, bruxarias ou as mil  formas do Ocultismo ou do Esoterismo, estejam sendo a matéria prima  dos mais recentes best-sellers, sintonizados com este nosso tempo  em mutação: tais como: História sem fim (1979) do germânico Michael Ende; O mundo de Sofia (1991); e o Vendedor de histórias (2001) do norueguês Jostein Gaarder; A Profecia Celestina, (1993) do americano James Redfield; ou ainda a Biblioteca Mágica de Bibi Bokken  (1999) de Jostein  Gaarder & Kalus Hagerup. Todos eles são verdadeiros “romances de aprendizagem” que, em lugar  de se debruçarem, como os de ontem, sobre as relações do Indivíduo  com a Sociedade, onde ele devia se realizar (vencendo os obstáculos  que ela lhe opunha), agora se debruça, essencialmente, sobre o próprio  Indivíduo, sobre o seu Ser, porque é Ele o território desconhecido a ser explorado.

Essa é a grande chave que, a nosso Ver, pode “abrir” para o  leitor adulto, alguns dos sentidos ocultos dessa insólita, enfeitiçada e divertida trama novelesca do bruxo Harry Potter e de seus  amigos bruxos e não-bruxos. Trama que vem conquistando leitores  mirins (os mutantes) de todas as partes do mundo, onde a série  vem sendo traduzida. E como toda literatura autêntica, sua leitura  estará agindo de forma subliminar na formação de suas mentes imaturas, para atuarem no mundo em transformação que os espera, ao crescerem.

Nelly Novaes Coelho é escritora, crítica literária e professora da Universidade de São Paulo.

 

Notas: 1. Joanne Kathleen Rowling nasceu na Escócia em 1965. Adolescente, passa a viver em Londres. Formada  em Letras, vai lecionar Língua Inglesa no Porto, onde em 1992 casa-se com o português, Jorge Arantes, com o qual teve uma filha, em 1993. No mesmo ano, o marido deixa-a e ela volta a viver em Londres. Começou a escrever o primeiro livro da série Harry Potter, em 1990, época em  que se mudara para Portugal, tornando-se professora de Língua e Literatura  Inglesa. Em 1995, terminou Harry Potter e a Pedra Filosofal, vendendo os Direitos Autorais por 4 mil dólares. Tratava-se, entretanto, do projeto de uma série de 7 volumes que,  à medida que foram sendo escritos (até o momento, início de 2005, já sairam 5 volumes), tornam-se um dos maiores  best-sellers internacionais. Em princípio programada para a  meninada adolescente, a série  acabou conquistando um grande público  de todas as idades. Os milhões de exemplares vendidos em todo  o mundo tornaram a Autora uma das mulheres mais ricas do Reino  Unido, neste início do século XXI. 2. Por diferentes que sejam as denominações ou explicações dadas pelas religiões, povos ou doutrinas esotéricas, as fases de evolução da consciência ou do espírito, todas têm em comum o número Sete. E todas partem  do corporal para o espiritual. Partem da descoberta do  próprio eu em relação ao outro, como a primeira etapa. A  esta, sucedem-se as demais sempre aprofundando a visão e o conhecimento do Eu em relação ao que transcende as  aparências do que ele vê, até chegar à Sabedoria Suprema, que Teilhard Chardin chama de Noosfera. Entre os Dogons na Àfrica, o número Sete é a insígnia do Mestre da  Palavra. E a sétima etapa da evolução, que corresponde à Perfeição, consiste na união dos contrários, na resolução do dualismo. Nos contos e lendas que vêm da origem dos tempos, a  realização do herói passa por sete etapas: 1ª- consciência do eu físico; 2a.- consciência da emoção (impulsos que misturam sentimentos e imaginação); 3a.-consciência da inteligência (capacidade de descobrir, classificar e racionar sobre o mundo à sua volta); 4a.– consciência da intuição (percepção do Inconsciente); 5a. –consciência da espiritualidade (distanciamento da  vida material); 6a.– consciência da Vontade (a que determina a Escolha e faz passar do Saber à Ação) e 7a.– conhecimento da Vida Plena (o enigma que dirige  toda a atividade vital humana e universal). (in Chevalier & Gheebrant) 3. É de se notar que, entre nós, em relação à literatura infantil, esse  processo mercadológico é absoluta exceção, pois  as nossas editoras investem diretamente nas escolas, junto aos  professores, isto é, trabalhando diretamente com o provável  público-alvo, sem depender da intermediação das livrarias. Daí o fato de, por um lado, não haver necessidade de marketing nos multimeios de comunicação, para a venda dos livros, e por  outro, tal ausência de publicidade, acaba por impedir que os nossos excelentes livros de Literatura Infantil/Juvenil (fora as exceções de sempre) se tornem conhecidos do grande público. Na verdade, o Brasil pode se igualar, em qualidade literária e em quantidade de excelentes  escritores e ilustradores desse gênero, com os melhores dos demais países. É o que o mostram as Feiras Internacionais do Livro Infantil, entretanto, para a quase total maioria do público brasileiro, isso é totalmente desconhecido.