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O Primeiro Regresso

 

Rodolfo Konder

 

As gaivotas gritavam, mas não podíamos vê-las, porque a neblina cobria as areias de Carrasco, uma praia da zona nobre de Montevidéu. Naquela hora de maré baixa, as águas doces do Rio da Prata – que chegavam de Buenos Aires e se preparavam para mergulhar no Atlântico Sul – acariciavam a cidade. Mais tarde, com a maré alta, elas seriam deslocadas pelas águas salgadas do oceano.

Ali, naquela esquina batida pelo vento, conversei com o ex-deputado Demistóclides Batista, o Batistinha, um negro valente e generoso que seria assassinado em Niterói, quase trinta anos depois, com cinco tiros no peito. Estávamos ambos exilados, em razão do golpe militar de abril daquele ano de 1964.

  Andamos pelas ruas arborizadas, até a Avenida 18 de Julio, passamos em frente ao prédio “de la Municipalidad” (sede da prefeitura) e chegamos à Plaza de la Independencia, sempre empurrados pelo Minuano. Naquele “país sem crianças” (dizia o jornalista Paulo Ramos Derengóski), mas cheio de “jubilados” (aposentados), buscávamos inutilmente atalhos para o futuro, que nos reservara surpresas devastadoras. Nossos amigos uruguaios, por exemplo, viveriam em seguida os tormentos de uma grave crise econômica e os pesadelos de uma prolongada ditadura militar.

Dias depois, Batistinha me levou de carro até uma pequena cidade do interior do Uruguai – Tucuarembó. A rua empoeirada lembrava os velhos filmes de Gary Cooper, com umas poucas casas antigas de madeira, que incluíam uma agência bancária, um hotel de segunda e uma livraria quase imperceptível. Fui até o homem de testa ampla e cabelos lisos que se escondia atrás da caixa registradora. “Quiero comprar el libro El Hambre, de Knut Hanson”. Ele sorriu, levantou-se e me abraçou. A frase era uma senha.

O livreiro Zili me abrigou, durante dois dias, na casa de um pequeno fazendeiro. Eu dormia no celeiro, onde tomávamos chimarrão e prevíamos a chegada do socialismo e a derrota dos militares. Então, fui levado de automóvel até uma padaria, em Rivera, onde trabalhava um jornalista de Porto Alegre, Edmur Ferreira, também foragido. Ficamos os três – Edmur, eu e um dirigente estudantil gaúcho – num imenso depósito de objetos velhos – móveis usados, manequins rasgados, placas de madeira. E ratos. Parecia o cenário de A Morte Passou por perto, um dos primeiros filmes de Stanley Kubrick.

Certa noite, recebi do estudante uma passagem de trem até Porto Alegre. Atravessei Rivera, entrei em Santana do Livramento e fui para a estação ferroviária. Cassiqui, Santa Maria, cheguei a Porto Alegre bem cedo. No endereço indicado, toquei a campainha. Um homem idoso, olhar cansado e bronquite crônica, abriu a porta da casa. “Vim aqui negociar os couros de Santa Maria”, disse-lhe. Ele me abraçou comovido. A frase era outra senha.

A etapa seguinte foi uma viagem de ônibus até São Paulo, onde me receberam meus tios Sulamita e Antonio Comparato, num casarão da Rua Arthur Prado, no Paraíso. Arthur Prado, 523. Logo o editor Ênio Silveira me buscou, numa Kombi, e me levou de volta ao Rio de Janeiro, onde vivi uma fase arrastada de novas agonias. Durante meses, os bares de Copacabana e Ipanema foram novamente os pontos de encontro de amigos igualmente desorientados, que percorriam comigo os labirintos da melancolia, da causticidade, da tristeza e da desesperança. Bebíamos o chope preto do Bar Alpino, enquanto três homens grisalhos tocavam no piano, no violino e no contrabaixo músicas que ninguém ouvia. Desempregado – e sem profissão definida – tornei-me jornalista e fui traduzir telegramas na Agencia Reuters. A política deixara de ser uma aventura, para se transformar num drama. E não havia mais heróis, na minha história – apenas seres amargurados.

Rodolfo Konder é escritor, jornalista, Diretor Cultural da UniFMU e conselheiro da União Brasileira de Escritores.