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O FUTURO ENDEREÇO

 

 

Joanyr de Oliveira

 

 

Ultimamente, depois de eleito para presidir a ANE, por dever de ofício tenho pisado com inusitada freqüência um território indesejado pela maioria dos viventes. Ali, em volta a silenciosa multidão de símbolos, funéreos símbolos, todos se reconhecem  efêmeros, frágeis, vulneráveis, em suma, irreversivelmente “morrentes” (permitam-me o neologismo). A legião de órfãos e viúvas que por ali transita, com sua sombria presença, com seus suspiros e lágrimas, enfatiza as negras cores do fim, caminho a que todos nós estamos destinados. Nos momentos quando nos fazemos presentes naquele cenário, levando ou sendo levados, forçosamente os diálogos ou solilóquios versam sobre o pó de onde procedemos e o pó em que nos haveremos de converter. É tudo muito triste, sim, a melancolia reinante se justifica.

Número crescente de parentes, de amigos, com o fluir das horas e dos anos, vai-se aglomerando no referido espaço, que em um poema batizei de “a zona mais roxa e doída da cidade”. Verdadeiramente, dói!

É. Como não há vida humana sem alma, sobram-nos os chamados restos mortais. Não poderia ser, pelo menos, restos, mas vitais? A despedida não poderia consubstanciar-se com espírito, alma e corpo, coberta de regozijo, de reminiscências, até de canções e de festivos hinos? Mas, como se sabe, não é o que ocorre. Predomina é o peso da ausência, da ruptura, da dor de quem vê partir, sem a execução, do outro lado, do dueto nos lábios de quem partiu... o que torna mais difíceis, mais pesadas, mais desconfortáveis as horas do adeus.

Os companheiros escritores, os amigos em geral, os parentes que aqui me restam (os filhos bateram asas, e foram chocar, em longínquas terras, meus belos netos e netas) cada dia chamam-me mais fortemente. Desfrutando embora de boa saúde, graças a Deus, como integrantes de amplos corais, não mais com meros solos, ou quartetos, eles fazem ecoar o convite para a companhia, convite que me é até simpático.

As assíduas visitas – por dever de ofício, já o disse – à derradeira morada de tanta gente querida acabaram por compelir-me à aquisição do meu próprio cantinho, em local bem acessível, quase junto da pista e da grande cruz que, de perto e de longe, indica o lugar. Não gosto de incomodar, os íntimos sabem como sou, dou trabalho no mínimo possível. (Diga-se, de passagem, que quem me ouve considera aquilo um ato deveras inconveniente, com cheiro de agouro ou coisa parecida, mas o que hei de fazer, Senhor ?).

Dia desses, mandei um e-mail ao “mais chegado dos amigos”, com um poema pesado de interrogações, mas que, otimistamente, finalizo com a palavra Ressurreição. O título traz as letras e números de “meu futuro endereço”: S. A, Q. 701-2, L. 3953, Camp/o/a da Esperança.

(O poema, que o mestre Braga Horta considerou bom, qualquer dia desses o publicarei. Ou alguém o fará por mim...) Brasília, 10.5.2007

 

Joanyr de Oliveira é escritor, crítico literário e presidente da ANE.