Antonio Possidonio Sampaio

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A Solução

 

Conto de Caio Porfírio Carneiro

 

Tarde da noite. Tão tarde que a noite parecia não ter fim. E o vento brando, constante e quase imperceptível, vibrava no caixilho solto da janela.

Ela, insone, camisola puída, levantou-se da cama, que rangeu mais alto, porque rangia a qualquer movimento dela, pelo tato alcançou os chinelos, pelo tato foi até à janela, abriu-a, a vibração do caixilho cessou, e olhou lá fora. Alcançou o vulto das árvores, do cercado, do animal deitado junto ao mourão.

Tão tarde e ele não chegava. A noite avançava para o dia. Fechou a janela, o caixilho tornou a vibrar, arrastando as chinelas voltou para a cama, e ao ruído da cama somou-se o ruído da porta, e o vulto dele surgiu. Sentou-se na cama, esperançosa, dedos cruzados:

-      Vendeu?

Sentou-se na rede armada em frente à cama, pequeno embalo pisando nas alpercatas com os pés doloridos, camisa rajada de remendos:

-      Não.

E a venda precisava ser feita, a terrinha era boa, o casebre bem seguro nos mourões fortes, e a criação não era tão rareada assim.

De permeio o silêncio, o rangido da cama, dos armadores da rede, a vibração do caixilho e os rápidos estalidos do óleo no pavio do lampião.

O sítio, quase fazenda, que o filho, falecido tão moço, deixou no Sul, estava esperando. Terras de verde constante, ali no documento.

-      A gente precisa vender. Ir embora. Tomar conta do sítio bonito, que o coitado do nosso filho deixou.

-      Eu sei, mulher.

-      A gente pode baixar o preço.

-      Já baixei demais.

-      A gente pode deixar alguém tomando conta.

-      Só saio vendida. A gente vai pra longe.

-      E o que a gente faz?

Embalava-se na rede, buscando uma solução. Ela ampliava o rangido da cama, buscando uma solução.

O caixilho da janela vibrava mais intensamente, como se buscasse, ele também, uma solução.

O caixilho da janela vibrava mais intensamente, como se buscasse, ele também, uma solução.

O dia veio e seguiram-se outros dias. A cama continuou a ranger e ela a levantar-se e a olhar o estirão lá fora. O caixilho vibrava e emudecia quando a janela se abria e fechava. Ele continuando a retornar das longas caminhadas, levando sua oferta, iniciadas durante o dia e terminadas altas horas.

-      Vendeu?

-      Não.

A esperança dela foi se desvanecendo e o belo sítio, quase fazenda, lá no Sul, morrendo na distância. Os embalos dele diminuíam e a quase fazenda diluía-se muito longe.

Depois da caminhada tão longa, ela na cama olhou para ele, ele na rede olhou para ela, e no cessar do ranger das molas, dos armadores, no silêncio do caixilho, cresceu a resolução entre os dois:

-      Vou consertar a cerca caída.

-      E eu vou preparar aquele canteiro perto do poleiro.

Ele apagou o candeeiro, e depois de noites e noites de vigília e cansaço dormiram em paz.

Caio Porfírio Carneiro é contista e secretário administrativo da União Brasileira de Escritores.