
A
Solução
Conto de
Caio Porfírio Carneiro
Tarde
da noite. Tão tarde que a noite parecia não ter fim. E o vento brando,
constante e quase imperceptível, vibrava no caixilho solto da janela.
Ela,
insone, camisola puída, levantou-se da cama, que rangeu mais alto, porque
rangia a qualquer movimento dela, pelo tato alcançou os chinelos, pelo tato foi
até à janela, abriu-a, a vibração do caixilho cessou, e olhou lá fora.
Alcançou o vulto das árvores, do cercado, do animal deitado junto ao mourão.
Tão
tarde e ele não chegava. A noite avançava para o dia. Fechou a janela, o
caixilho tornou a vibrar, arrastando as chinelas voltou para a cama, e ao ruído
da cama somou-se o ruído da porta, e o vulto dele surgiu. Sentou-se na cama,
esperançosa, dedos cruzados:
- Vendeu?
Sentou-se
na rede armada em frente à cama, pequeno embalo pisando nas alpercatas com os
pés doloridos, camisa rajada de remendos:
- Não.
E a venda precisava ser feita, a terrinha era boa, o casebre bem
seguro nos mourões fortes, e a criação não era tão rareada assim.
De permeio
o silêncio, o rangido da cama, dos armadores da rede, a vibração do caixilho e
os rápidos estalidos do óleo no pavio do lampião.
O sítio, quase fazenda, que o filho, falecido tão moço, deixou no
Sul, estava esperando. Terras de verde constante, ali no documento.
- A gente precisa vender.
Ir embora. Tomar conta do sítio bonito, que o coitado do nosso filho deixou.
- Eu sei, mulher.
- A gente pode baixar o
preço.
- Já baixei demais.
- A gente pode deixar
alguém tomando conta.
- Só saio vendida. A gente
vai pra longe.
- E o que a gente faz?
Embalava-se
na rede, buscando uma solução. Ela ampliava o rangido da cama, buscando uma
solução.
O
caixilho da janela vibrava mais intensamente, como se buscasse, ele também, uma
solução.
O
caixilho da janela vibrava mais intensamente, como se buscasse, ele também, uma
solução.
O
dia veio e seguiram-se outros dias. A cama continuou a ranger e ela a
levantar-se e a olhar o estirão lá fora. O caixilho vibrava e emudecia quando a
janela se abria e fechava. Ele continuando a retornar das longas caminhadas,
levando sua oferta, iniciadas durante o dia e terminadas altas horas.
- Vendeu?
- Não.
A
esperança dela foi se desvanecendo e o belo sítio, quase fazenda, lá no Sul,
morrendo na distância. Os embalos dele diminuíam e a quase fazenda diluía-se
muito longe.
Depois
da caminhada tão longa, ela na cama olhou para ele, ele na rede olhou para ela,
e no cessar do ranger das molas, dos armadores, no silêncio do caixilho,
cresceu a resolução entre os dois:
- Vou consertar a cerca
caída.
- E eu vou preparar
aquele canteiro perto do poleiro.
Ele
apagou o candeeiro, e depois de noites e noites de vigília e cansaço dormiram
em paz.
Caio
Porfírio Carneiro é contista e secretário administrativo da União Brasileira de
Escritores.