
O Grande Esquecimento
O que um rio leva
para o mar? O Saint Lawrence,
por exemplo, arrasta para o Atlântico Norte as memórias geladas dos
conquistadores, as imagens de índios mutilados, o som áspero das batalhas, as
sobras de algumas cidades e o óleo de muitos navios. O Amazonas,
com seus afluentes brancos, negros e verdes, carrega um país inteiro de
lendas, apreensões, alegrias, gestos de ousadia e momentos de solidão, até sua
foz gigantesca, dominada pela ilha de Marajó. As
sinuosidades do Tigre e do Eufrates, que já definiram os limites da
antiga Babilônia, são os caminhos de conflitos e realizações, avanços e
derrotas. Nas águas barrentas do Yang-tsé vão
os restos da Revolução Cultural, os discursos de Mão e a nostalgia dos velhos
mandarins. O rio Moscou eterniza as cúpulas douradas do Kremlin. A
Liberdade se banha no Hudson, ao sul de Manhattan. O Nilo pariu o Egito e os seus enigmas. O Sena beija Paris. O Tâmisa
derrama no oceano as lembranças estilhaçadas de um império perdido. E o Reno,
com suas walkírias? E o Rio da Prata,
com as canções de Gardel e os poemas de Borges? E o Ganges?
“Que
rio é este, por onde corre o Ganges?”, pergunta Borges, no poema Heráclito.
“Que rio é este, de fonte inconcebível? Que rio é este, que arrasta espadas e
mitologias? É inútil que durma. Ele corre no sonho, no deserto, num sótão. O
rio me arrebata e sou este rio”.
Há,
de fato, um rio que antecede os rios. Ele corre dentro de nós. Somos este rio,
sempre em transformação. Nossa vida é a correnteza que nos transporta em busca
do destino, ou seja, na realização de algum sonho, até porque, antes do
mergulho definitivo, precisamos sonhar. O sonho dá sentido ao nosso rio. Mas
nossos sonhos, nossos segredos e nossas memórias também afundarão, um dia. E
depois?
Onde
se depositam nossos sonhos, onde descansam? Talvez se abriguem nos escombros de
velhos barcos naufragados, quando não se realizam. Talvez simplesmente se
deitem no lodo das profundezas, ao lado das emoções mais fortes, das memórias
mais nítidas, das lembranças que também desaparecem conosco. No caso dos sonhos
plenamente realizados, talvez ganhem as asas de um pássaro e deixem para sempre
o oceano da morte, povoado de mistérios e movido por desígnios que jamais
conheceremos, mas que prevalecem sobre as leis da física e estão além dos
limitados horizontes humanos.
Há outra possibilidade.
Talvez Deus seja – como sugere o escritor Gilles Lapouge
– o grande oceano do esquecimento, para onde fluem nossas lembranças, nossos
sonhos, nossas realizações, as imagens que guardávamos, os odores, os sons, os
gostos. Também para lá escorrem tudo o que já soubemos
e perdemos. Os mistérios dos maias, dos teotihuacanos,
de todos os povos que mergulharam em suas águas turvas, das cidades soterradas,
dos centros abandonados, de Sodoma e Gomorra, da
Mesopotâmia, do Egito dos faraós e da Esfinge; e os nossos princípios morais, a
nossa ética, as amizades, os amores, a devoção dos cães, os conhecimentos dos
vencidos, os livros queimados, religiões que há muito deixaram de consolar,
dúvidas jamais esclarecidas – tudo isso segue nas corredeiras do nosso rio, na
direção do desconhecimento absoluto, do esquecimento que se mistura com a
memória, da morte que se confunde com a vida. Deus, afinal, talvez seja mais
nossa inexistência e nossa ignorância do que nossos pálidos feitos e nossa
enlouquecida aventura.
Rodolfo Konder, escritor e jornalista, é conselheiro da União Brasileira de Escritores.
