
Antonio Possidonio Sampaio |
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Amante obsessivo da literatura
viu-se uma tarde na Bienal. O mapa da exposição indicava, por ordem alfabética,
as ruas que o levariam a montanhas de livros. Titubeou nos
caminhos a seguir, tantos eram eles. Resolveu, na dúvida, começar a
peregrinação pelo final do alfabeto. E, assim, entrou na contramão da Bienal.
O
horário escolhido não foi dos melhores. Àquela altura,
curiosos e outros freqüentadores contumazes de eventos do gênero
inundavam os corredores. Procurou as laterais, evitando colocar-se como uma
pedra no meio do caminho das filas de crianças, arrebanhadas por monitores para
os estandes de livros infantis, como se fossem levadas a uma parada cívica.
Imaginou
que, se pudesse, daria uma olhada nas edições feitas para aquela faixa etária a
fim de verificar a qualidade do que era oferecido às crianças. Acaso os autores
nacionais estariam no topo? As filas obstruíam-lhe a possibilidade da
constatação. De um autor, o maior deles, sabia que há algum tempo era empurrado
para o ostracismo. Contudo, resistia ao tempo e às intempéries materiais,
preservado na memória dos que, depois de sua obra, jamais desistiriam das
riquezas que ele proporcionou à formação intelectual e à capacidade de
questionamento em relação à vida. E lembrou que a grande Clarice Lispector
fizera um conto no qual a sua obsessão primeira, quando criança, fora Monteiro
Lobato.
Seguiu
em frente e quase foi assimilado pela montanha dos best-sellers. Nada
contra eles, pensou. Afinal, uma nação não se faz com homens e livros? E não
foi Castro Alves quem proclamou: “Livros, livros à mão cheia e deixe o povo
pensar?” Raciocinou, apenas, que nem só de best-sellers sedimenta-se a
cultura humana. Em especial, quando seus autores se aferram a desvios
históricos, religiosos ou de outra qualquer natureza para captar atenções e,
mediante subterfúgios, firmarem-se como imensos tonéis vazios de cultura para
inglês ver.
Percebeu
que outro ponto polarizador das atenções estava nos estandes onde se
enfileiravam os volumes de auto-ajuda. Esses autores sabem mesmo como
pavimentar o caminho que leva aos céus. O crescimento de um deles era uma
exorbitância. Apoiara-se em pensadores orientais e privava de vida palaciana na terra dos
melhores vinhos e dos melhores autores. Razão tinha Flaubert em suas Cartas
Exemplares, ao afirmar, se lícito fosse ler, às avessas, a seguinte máxima
do mestre: “Um livro sempre foi para mim uma maneira especial de viver, um meio
de me inserir num certo ambiente”.
Nada
contra autores que vêm conseguindo fugir ao seu hábitat natural para ilustrar,
com a verve de seus conselhos extraídos da sabedoria milenar, encontros que
reúnem os donos da economia do mundo. A Bienal, com a
exposição de tantas obras apreciáveis, acolhe-os com a mesma afabilidade
com que abraça os autores da auto-ajuda recomendada no varejo para a leitura
nos ônibus e no metrô.
Mas
o risco para o nosso personagem era encontrar uma celebridade na esquina de
cada letra. Apesar dos cuidados que adotava, viu-se envolvido pelo povo e
pressionado contra as paredes removíveis de um estande. Quase entrou no foco de
uma equipe de TV, cuja repórter entrevistava uma autora da moda, reconstituída
depois que passou a assinar uma coluna em jornal diário. Avaliou que o jeito
era romper uma fileira de estudantes e colocar-se a salvo.
Examinou
os preços correntes. As promoções apenas confirmavam a dificuldade de acesso
aos livros, pois como colocá-los na mão do povo se cada um está pela hora da
morte? O governo reduziu os impostos incidentes sobre a produção editorial, mas
não criou os meios para aumentar o poder aquisitivo de uma população que vive –
se vive – da mão pra boca, afogada no desemprego e no desamparo social. É por
isso que cultura, por aqui, continua a ser um traço das elites.
Com
esses pensamentos, e já prestes a correr para a porta de saída, deu com estande
de uma editora portuguesa. Consultou os autores em busca de um que lhe marcara
a vida. E, com um pouco de esforço, descobriu-o em um canto: Miguel Torga, o
autor de Criação do Mundo, Vindima e Senhor
Ventura, mestre da língua e do pensamento, que durante anos a fio
bancou, do próprio bolso, os seus livros de crença na literatura e na
humanidade. Ele marcava presença discreta com alguns volumes, entre os quais, Ensaios
e discursos. E lembrou que só recentemente algumas de suas obras tiveram
edições brasileiras.
O
encontro com Miguel Torga, pseudônimo sob o qual o médico Adolfo Rocha navegou,
a partir de Trás-os-Montes, pelo mundo da literatura, significou, para o
visitante, o resgate da Bienal. É dele, desse escritor falecido em 1995 aos 86 anos, a seguinte reflexão sobre o papel do homem
de letras, hoje e sempre: “Um escritor, por modesto que seja, necessita de
assentar cada pedra com a probidade, a humildade e a esperança de quem vai
enfrentar a erosão dos séculos. Por isso, o seu ouvido deve estar mais atento
ao silêncio do futuro, do que às palmas do presente”.
Nildo Carlos Oliveira é escritor e jornalista,
autor de Olho por Olho, entre outros livros.