Antonio Possidonio Sampaio

Edições

Página Inicial

Editorial

Vestibular Dificuldades Ortográficas

Filosofia, Arte e Poesia

A Solução

O Grande Esquecimento

Editora Verbo

Editora Mantiqueira

Livros

Os Primeiros Tempos da ANE

Universitária Editora

Notícias

 

Na Contramão da Bienal

 

Nildo Carlos Oliveira

 

Amante obsessivo da literatura viu-se uma tarde na Bienal. O mapa da exposição indicava, por ordem alfabética, as ruas que o levariam a montanhas de livros. Titubeou nos caminhos a seguir, tantos eram eles. Resolveu, na dúvida, começar a peregrinação pelo final do alfabeto. E, assim, entrou na contramão da Bienal.

O horário escolhido não foi dos melhores. Àquela altura, curiosos e outros freqüentadores contumazes de eventos do gênero inundavam os corredores. Procurou as laterais, evitando colocar-se como uma pedra no meio do caminho das filas de crianças, arrebanhadas por monitores para os estandes de livros infantis, como se fossem levadas a uma parada cívica.

Imaginou que, se pudesse, daria uma olhada nas edições feitas para aquela faixa etária a fim de verificar a qualidade do que era oferecido às crianças. Acaso os autores nacionais estariam no topo? As filas obstruíam-lhe a possibilidade da constatação. De um autor, o maior deles, sabia que há algum tempo era empurrado para o ostracismo. Contudo, resistia ao tempo e às intempéries materiais, preservado na memória dos que, depois de sua obra, jamais desistiriam das riquezas que ele proporcionou à formação intelectual e à capacidade de questionamento em relação à vida. E lembrou que a grande Clarice Lispector fizera um conto no qual a sua obsessão primeira, quando criança, fora Monteiro Lobato.

Seguiu em frente e quase foi assimilado pela montanha dos best-sellers. Nada contra eles, pensou. Afinal, uma nação não se faz com homens e livros? E não foi Castro Alves quem proclamou: “Livros, livros à mão cheia e deixe o povo pensar?” Raciocinou, apenas, que nem só de best-sellers sedimenta-se a cultura humana. Em especial, quando seus autores se aferram a desvios históricos, religiosos ou de outra qualquer natureza para captar atenções e, mediante subterfúgios, firmarem-se como imensos tonéis vazios de cultura para inglês ver.

Percebeu que outro ponto polarizador das atenções estava nos estandes onde se enfileiravam os volumes de auto-ajuda. Esses autores sabem mesmo como pavimentar o caminho que leva aos céus. O crescimento de um deles era uma exorbitância. Apoiara-se em pensadores orientais e  privava de vida palaciana na terra dos melhores vinhos e dos melhores autores. Razão tinha Flaubert em suas Cartas Exemplares, ao afirmar, se lícito fosse ler, às avessas, a seguinte máxima do mestre: “Um livro sempre foi para mim uma maneira especial de viver, um meio de me inserir num certo ambiente”.

Nada contra autores que vêm conseguindo fugir ao seu hábitat natural para ilustrar, com a verve de seus conselhos extraídos da sabedoria milenar, encontros que reúnem os donos da economia do mundo. A Bienal, com a exposição de tantas obras apreciáveis, acolhe-os com a mesma afabilidade com que abraça os autores da auto-ajuda recomendada no varejo para a leitura nos ônibus e no metrô. 

Mas o risco para o nosso personagem era encontrar uma celebridade na esquina de cada letra. Apesar dos cuidados que adotava, viu-se envolvido pelo povo e pressionado contra as paredes removíveis de um estande. Quase entrou no foco de uma equipe de TV, cuja repórter entrevistava uma autora da moda, reconstituída depois que passou a assinar uma coluna em jornal diário. Avaliou que o jeito era romper uma fileira de estudantes e colocar-se a salvo.  

Examinou os preços correntes. As promoções apenas confirmavam a dificuldade de acesso aos livros, pois como colocá-los na mão do povo se cada um está pela hora da morte? O governo reduziu os impostos incidentes sobre a produção editorial, mas não criou os meios para aumentar o poder aquisitivo de uma população que vive – se vive – da mão pra boca, afogada no desemprego e no desamparo social. É por isso que cultura, por aqui, continua a ser um traço das elites.  

Com esses pensamentos, e já prestes a correr para a porta de saída, deu com estande de uma editora portuguesa. Consultou os autores em busca de um que lhe marcara a vida. E, com um pouco de esforço, descobriu-o em um canto: Miguel Torga, o autor de Criação do Mundo, Vindima e Senhor Ventura, mestre da língua e do pensamento, que durante anos a fio bancou, do próprio bolso, os seus livros de crença na literatura e na humanidade. Ele marcava presença discreta com alguns volumes, entre os quais, Ensaios e discursos. E lembrou que só recentemente algumas de suas obras tiveram edições brasileiras.

O encontro com Miguel Torga, pseudônimo sob o qual o médico Adolfo Rocha navegou, a partir de Trás-os-Montes, pelo mundo da literatura, significou, para o visitante, o resgate da Bienal. É dele, desse escritor falecido em 1995 aos 86 anos, a seguinte reflexão sobre o papel do homem de letras, hoje e sempre: “Um escritor, por modesto que seja, necessita de assentar cada pedra com a probidade, a humildade e a esperança de quem vai enfrentar a erosão dos séculos. Por isso, o seu ouvido deve estar mais atento ao silêncio do futuro, do que às palmas do presente”.

Nildo Carlos Oliveira é escritor e jornalista, autor de Olho por Olho, entre outros livros.